CAOSTSUO
Pedro Matsuo
Curadoria Fabio Vieira de Oliveira
Marina Bortoluzzi

    Em 2014, Pedro Matsuo teve uma overdose indo para a praia. Ele tinha 17 anos e sobreviveu. A experiência da quase-morte foi efeito borboleta na vida do artista. Nesse despertar espiritual, ele encontrou na arte sua válvula de escape. Começou desde cedo a pintar, grafitar nas ruas e na casa de amigos, mas foi a partir de seu renascimento que a veia artística intensificou dando ressignificado a sua existência hiperativa.
    Já diria Nietzsche, que o ser humano encontra sua salvação na arte na superação de si mesmo. Além do bem e do mal, o indivíduo é alguém com horizontes livres, uma folha em branco, caracterizada pelo nada simples poder de escolha. Pedro Matsuo escolheu viver. E nessa nova chance, abraçou a sombra ao dar luz a um trabalho inquieto que expande em múltiplas vertentes, na forma de pintura, projeção, fotografia, escultura, instalação, tatuagem, design, mobiliário, tecnologia e moda. Seu emaranhado interno espelha sua potência em explosão criativa.
    Em sua primeira exposição individual, o artista convida o espectador a embarcar em seu relato e vivenciar, a partir de suas visões e sonhos, seus signos e simbologias. Da alucinação das drogas ao delírio do dia a dia, passamos pelo processo de internação e autoconhecimento, onde os cadernos foram grandes aliados, durante a desintoxicação. Depois, obras pictóricas exploram a transformação no plano terreno, flashbacks do passado e a expressão do subconsciente. Ícones se repetem como os olhos, portais da alma; as linhas geométricas e orgânicas, na predominância do branco e preto; a tipografia misteriosa, com código próprio a ser desvendado; e a figura do camaleão, um reflexo do multiartista, flexível, adaptável às mudanças.
   O inventário, que aqui se apresenta, mapeia técnicas, dimensões e mídias diversas carregadas de sensorialidade. Criações desenvolvidas ao longo desse percurso exploratório e também instalações site-specific, elaboradas exclusivamente de dentro da galeria. O uso de materiais, aparentemente simples, traz aspecto cru ao ambiente, algo inacabado, indefinível, em auto-observação, entre o devir e o porvir, nesse campo de experimentação e improvisação, extravasando a matéria visível. A verdade é que estamos transitando um capítulo de passagem, mergulhados no fluxo incessante do artista, em meio ao seu caos.
   Caos é menos sobre desordem e mais sobre movimento. É o vazio primordial, no cosmos, contendo todas as possibilidades da eternidade. É preenchimento de ar e espaço, ilimitado, infinito. Dentro de seu universo em expansão, Pedro Matsuo nos incentiva a cultivarmos o caos dentro de nós, dando vazão a nossa inquietude. Para ele, qualquer instante é fonte de inspiração. Ainda mais no momento que nos atravessa, a exposição é uma ode ao agora, a tudo que podemos realizar, amar e sentir, na valorização da nossa máxima potencialidade e na intensidade do presente. O caos de cada dia é, simplesmente, vida.

Agradecimentos: Bruno Carvalho
Cristiano Martins
Eduardo Finatto "Guspe"
Giovanni Presotto
Guilherme Medaglia
Lise Alves
Nani Machado
Isabella Piva
Vinicius Mazu
Thais Alves